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Prevenção

Escore de cálcio coronário: o que o seu resultado realmente significa

Um exame de poucos segundos mostra a placa calcificada nas artérias do coração, antes do primeiro sintoma. Como interpretar o resultado e, principalmente, o que ele não significa.

Cardiologista · CRM-DF 31490 · RQE 22716
7 min de leitura
Corte axial de tomografia cardíaca com placas de cálcio coronário destacadas em laranja

Imagem ilustrativa: tomografia de coração (sem contraste) evidenciando calcificação coronariana.

Há quinze anos, a prevenção cardiovascular era basicamente uma conversa sobre colesterol, pressão e hábitos. Hoje, com o escore de cálcio coronário, conseguimos ver, literalmente, a placa calcificada nas artérias do coração antes do primeiro sintoma.

O exame mudou a forma como prevenimos o infarto. Mas, como toda ferramenta poderosa, ele exige interpretação cuidadosa: um número sem contexto pode tanto tranquilizar de forma equivocada quanto gerar ansiedade desnecessária. Este texto é um guia direto sobre o que o resultado significa e, sobretudo, sobre o que ele não significa.

O que é o escore de cálcio

O escore de cálcio coronário (CAC, do inglês coronary artery calcium score) é uma medida quantitativa da quantidade de cálcio depositada nas artérias do coração. É obtido por uma tomografia de baixa dose, sem contraste, em poucos segundos.

A presença de cálcio coronário é um marcador direto de aterosclerose e, o que é mais importante, prediz risco de forma independente dos fatores tradicionais.1 Em outras palavras: enquanto colesterol, pressão e glicemia são estimativas indiretas de risco, o cálcio é a evidência de que a doença já está presente na parede do vaso.

Como o exame é feito

A tomografia leva menos de cinco minutos, é feita sem contraste, sem necessidade de jejum prolongado e sem qualquer preparo medicamentoso. A dose de radiação é baixa, na mesma ordem de grandeza da de uma mamografia.

Não há injeção de contraste, não há sintoma esperado durante o exame, e o paciente volta à rotina imediatamente.

“O cálcio é uma fotografia da história do paciente; ele já aconteceu. A pergunta clínica é o que fazer dali em diante.”

Interpretando o resultado

O resultado é expresso em unidades Agatston, agrupadas em faixas. O número absoluto é o que melhor prediz o risco;2 mas ele ganha significado quando lido ao lado do percentil: quanto cálcio você tem em comparação com pessoas da mesma idade e sexo. Essa leitura conjunta é decisiva sobretudo nos mais jovens.

AgatstonSignificado clínicoFaixa de risco
0Ausência de cálcio detectável. Não exclui placa não calcificada. Baixo
1 a 99Aterosclerose leve. Baixo a intermediário
100 a 399Aterosclerose moderada. Alto
400 a 999Aterosclerose extensa. Alto a muito alto
≥ 1000Carga aterosclerótica muito elevada; equivalente a doença coronariana estabelecida em termos de risco. Muito alto

As diretrizes atuais (SBC 2025 e ACC/AHA 2026) classificam o risco cardiovascular em cinco faixas: baixo, intermediário, alto, muito alto e extremo. Um esclarecimento importante: o risco extremo é reservado a situações clínicas específicas, como doença aterosclerótica já estabelecida com eventos recorrentes, e não é definido pelo escore de cálcio isoladamente. O escore ajuda a posicionar a pessoa nessas faixas, mas a classificação final sempre considera o contexto clínico completo.

Um escore de 50 em um homem de 70 anos tem peso muito diferente do mesmo 50 em um homem de 45. O primeiro está dentro do esperado para a idade; o segundo, mesmo com número absoluto baixo, está em percentil elevado, e merece atenção redobrada.

Onde ele ajuda

O escore de cálcio é uma boa ferramenta de rastreio complementar, uma arma a mais no arsenal da prevenção. Ele não substitui a avaliação clínica nem as calculadoras de risco; soma-se a elas, ajudando a refinar a estimativa e a personalizar as decisões de prevenção.3

É onde ele costuma agregar mais:

  • Trazer objetividade a quem tem histórico familiar de doença coronariana precoce;
  • Complementar a avaliação de quem já reúne múltiplos fatores de risco;
  • Dar mais clareza quando a pessoa quer entender, com evidência de imagem, como estão de fato as suas artérias.

A indicação, em cada caso, é sempre individual e definida em conjunto com o seu médico.

O que ele não diz

Esta é, talvez, a parte mais importante. O escore de cálcio mede placas calcificadas, em geral mais antigas e mais estáveis. Em pacientes mais jovens, a aterosclerose costuma ser não calcificada: placas ricas em lipídio, potencialmente instáveis, que não aparecem no escore.

Por isso, um escore zero em um paciente jovem com múltiplos fatores de risco (tabagismo, dislipidemia familiar, diabetes, Lp(a) elevada) não autoriza relaxar.4 Nesse cenário, outras ferramentas, como a angiotomografia de coronárias, podem complementar a estratificação cardiovascular.

A mesma cautela vale para quem tem sintomas: diante de dor no peito, um escore zero, isoladamente, não afasta doença, e a investigação precisa seguir por outros caminhos.

O que fazer com o resultado

Aqui não existe resposta única. O mesmo número pode apontar condutas diferentes conforme a sua idade, o seu histórico, os seus sintomas e os demais fatores de risco. Um escore zero, por exemplo, está associado a um risco muito baixo por muitos anos,5 mas mesmo esse resultado precisa ser lido dentro do seu contexto, e não como um cheque em branco.

Por isso, o que fazer a partir do resultado é, necessariamente, uma decisão individual, tomada com o seu médico: é ele quem transforma o número em conduta, considerando tudo o que o exame, sozinho, não mostra.

Em resumo

O escore de cálcio coronário é uma das ferramentas mais bem estudadas para personalizar a prevenção cardiovascular. Mas, como toda ferramenta, ele vale pela mão que o usa. O resultado isolado diz pouco; o resultado interpretado dentro do contexto clínico diz quase tudo.

Referências

  1. Detrano R, Guerci AD, Carr JJ, et al. Coronary calcium as a predictor of coronary events in four racial or ethnic groups (MESA). N Engl J Med. 2008;358(13):1336-1345. doi:10.1056/NEJMoa072100
  2. Budoff MJ, Nasir K, McClelland RL, et al. Coronary calcium predicts events better with absolute calcium scores than age-sex-race/ethnicity percentiles: MESA. J Am Coll Cardiol. 2009;53(4):345-352. doi:10.1016/j.jacc.2008.07.072
  3. 2026 ACC/AHA/Multisociety Guideline on the Management of Dyslipidemia. Circulation. 2026. doi:10.1161/CIR.0000000000001423
  4. Bhatia HS, Fan Y, Dharmavaram G, et al. Use of coronary artery calcium scoring in individuals with elevated lipoprotein(a): a multicohort study. J Am Coll Cardiol. 2026;87(20):2864-2872. doi:10.1016/j.jacc.2026.02.5067
  5. Valenti V, ó Hartaigh B, Heo R, et al. A 15-year warranty period for asymptomatic individuals without coronary artery calcium: a prospective follow-up of 9,715 individuals. JACC Cardiovasc Imaging. 2015;8(8):900-909. doi:10.1016/j.jcmg.2015.01.025

Base adicional para o contexto brasileiro: Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025.

Método de quantificação original: Agatston AS, Janowitz WR, Hildner FJ, et al. Quantification of coronary artery calcium using ultrafast computed tomography. J Am Coll Cardiol. 1990;15(4):827-832.

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